(DES)CAMINHOS DO OURO
A história guardada pelas ruínas da Serra da Moeda
A política portuguesa aplicada ao Brasil sempre esteve voltada para resguardar ao Reino os direitos patrimoniais, visando à arrecadação e ganhos de natureza financeira. As medidas adotadas pela Coroa em relação à mineração do ouro, nunca tiveram, por finalidade, a proteção da mineração do ouro; ao contrário, todas elas apenas visavam o aumento da produção, assegurando lucros à Coroa.
Buscando garantir seus rendimentos, a Coroa portuguesa instituiu várias medidas fiscais relativas à produção e à circulação do ouro, para coibir o descaminho da mercadoria. Entre os sistemas adotados estava a proibição de circulação do ouro em pó e a consequente criação das casas de fundição, onde era arrecadado o quinto (imposto) do ouro.
Como no comércio o ouro tinha um valor muito maior do que aquele atribuído pelo Governo, o contrabando, a sonegação e a falsificação eram problemas enfrentados pela Coroa. A falsificação de moedas é um exemplo das múltiplas táticas de fraude desenvolvidas no Período Colonial, principalmente no período do estabelecimento das primeiras Casas de Fundição (entre 1724 e 1735).
Inácio de Souza Ferreira, juntamente com Manuel Francisco e outros cúmplices, montou uma casa de moedas em um sítio de difícil acesso, situado no vale do Paraopeba. Uma vez aparelhado e estruturado, logo começou a fundir barras falsas de ouro e moedas com cunhos falsos e até legítimos, furtados das casas de fundição e dados como inutilizados.
Para estabelecer a fábrica de moedas falsas, os falsários deveriam escolher um local adequado que permitisse o desenvolvimento dos trabalhos de maneira tranquila e longe da fiscalização. Escolheram, nas palavras do explorador Richard Burton, uma ‘‘secular e amedrontadora floresta no sopé da Grande Serra, perto do lugar agora chamado de São Caetano da Moeda’’.
A fábrica se instalou em terras da fazenda dos Borges Carvalho, na Serra do Paraopeba, mais ou menos próximo de um povoado antigo de nome Jesus, Maria e José da Boa Vista, local de matas primitivas, a meia encosta de uma serrania de difícil acesso, que corresponde hoje a Serra da Moeda.
O Vale do Paraopeba, por sua localização e características geográficas, era uma excelente rota de contrabando. Constituía um caminho alternativo que dava acesso a três das quatro comarcas de Minas: Vila Rica, Rio das Velhas e Rio das Mortes. Tratava-se de um trecho de difícil acesso em função do seu terreno acidentado perfeito para esconderijos e fugas.
A construção explorou ao máximo as condições topográficas locais e utilizou matéria-prima encontrada na região. O caráter de permanência da pedra permitiu que os vestígios sobrevivessem até os dias de hoje, embora, por motivos diversos, as ruínas estejam bastante degradadas.
As ruínas mostram a casa que apresenta uma única entrada frontal, um portal de acesso e as ruínas constituem uma construção quadrangular, com aproximadamente 50x40 metros de comprimento. No seu interior há uma construção menor, também de pedra. As muralhas externas têm apenas uma abertura na frente: uma porta de 3,60 metros de altura e 2 metros de largura. A casa interna tem duas portas, à frente e atrás, e seis janelas laterais. Tudo em pedra maciça e retangular, chegando alguns blocos a 1,50m de comprimento. A construção revela enorme trabalho e habilidade dos seus artífices.
As moedas da fábrica do Paraopeba eram de ouro, sendo falsas somente pela clandestinidade e ilegalidade de sua fabricação.
No início, durante aproximadamente três anos, a fábrica funcionou a contento dos sócios. Os compradores de ouro em pó reuniam quantidades consideráveis e Inácio cunhava moedas do modelo autorizado, com a sobremarca aos modelos do Rio de Janeiro e de Minas.
A fábrica tinha uma organização perfeita ou quase perfeita, seu regimento continha instruções e regras detalhadas para seu bom funcionamento e para a manutenção da ordem. O regimento era de disciplina militar, sendo a fábrica de fundição de ouro do Paraopeba comandada como uma verdadeira praça de guerra.
O regimento proibia o vinho e a água-ardente, estabelecia, em relação a alimentação, que todos deveriam comer fartamente no almoço, jantar, merenda e ceia, porém não permitia o desperdício; além disso, o regimento permitia o chocolate.
Os jogos eram proibidos. Permitia que se gastasse algum tempo em cantar e tocar, mas proibia o arrancamento de facas. Além disso, Inácio exigia de cada um dos sócios que ficassem inteiramente esclarecidos das responsabilidades e perigos que corriam uma vez que o crime de cunhagem de moeda falsa era considerado de extrema gravidade.
A fábrica foi extinta após delação de um funcionário da coroa. Mas as ruínas são um testemunho histórico da história da mineração, em especial dos descaminhos do ouro em período colonial.

















