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Geopark Quadrilátero Ferrífero na Revista Vértice - CREA-Minas
Patrimônio conta a história da mineração em Minas
Geopark Quadrilátero Ferrífero abriga importantes sítios da geologia mineira
Reconhecido em âmbito internacional pelo seu valor científico, o Quadrilátero Ferrífero (MG) deu origem ao geoparque homônimo lançado em 1º de setembro deste ano. O evento marcou o encerramento da visita de Guy Martini, coordenador da Geopark Réserve Géologique de Haute Provence (França) e Rosaria Módica, do Geopark Madonie (Itália), especialistas da Comissão de Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) à região, uma das etapas da candidatura mineira à Rede Global de Geoparques Nacionais reconhecidas pela entidade.
A proposta do Geopark Quadrilátero Ferrífero contempla 28 sítios, abrangendo 25 municípios e cerca de 6.500 km² da região do Quadrilátero Ferrífero. Delimitada pelas serras do Curral, da Moeda, do Caraça e de Ouro Branco, além de contar a história da mineração em Minas e no Brasil, “é uma região pré-cambriana clássica, importante testemunho do período compreendido entre o aparecimento da Terra até o início do cambriano, há cerca de 540 milhões de anos”, enfatiza a professora da UFMG, Úrsula Ruchkys, que integra o comitê técnico-científico do geoparque.
Uma primeira versão do dossiê de candidatura à Rede Global de Geoparques foi submetida em 2009 e uma segunda versão foi encaminhada no ano seguinte. A proposta foi definida a partir de estudos, levantamentos e discussões empreendidos desde 2006 pelas instituições fundadoras do Geopark - UFMG, UFOP, PUC-Minas, CPRM - Serviço Geológico do Brasil, Cetec, Fapemig e a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Minas Gerais, através do Polo de Excelência Mineral e Metalúrgico. Associadas, deram origem ao Instituto Quadrilátero, responsável pela gestão do parque e suas parcerias nacionais e internacionais.
Segundo Renato Ciminelli, coordenador do Geopark Quadrilátero Ferrífero e gerente executivo do Polo de Excelência Mineral e Metalúrgico, as instituições parceiras investiram aproximadamente um milhão de reais no projeto, notadamente em levantamentos e estudos sobre a área. “Pretendemos que o geoparque seja um repositório de conhecimento sobre o Quadrilátero e que possibilite o acesso livre ao conteúdo produzido sobre o tema”, adianta o coordenador.
Brasil na Rede
Geoparque (ou Geopark, em inglês) é uma marca atribuída pela Unesco a uma área com limites bem definidos onde haja um determinado número de sítios geológicos de especial importância científica, raridade ou beleza. Esses parques são indutores da conservação do patrimônio geológico e do desenvolvimento sustentado da área por meio de ações de cunho didático e cientifico e da promoção do geoturismo. “Mais que cartões-postais, os sítios geológicos que integram um geoparque são testemunhos da evolução da Terra e só com um direcionamento apropriado é possível que as pessoas compreendam a importância do aspecto geológico para a conformação daquele local, daquela comunidade”, enfatiza Úrsula Ruchkys, professora da UFMG. Ela lembra que o movimento do grupo das ciências da Terra da Unesco pela valorização do patrimônio geológico começou a ganhar força no final da década de 1990 e resultou na formação da Rede Mundial de Geoparques, que dá suporte às iniciativas locais de implantação dessas áreas. Constituída em 2004, tem hoje 77 membros de 25 países.
Neste ano, além da proposta do Quadrilátero Ferrífero, está em análise a do Geoparque Bodoquena-Pantanal, que recebeu os avaliadores no final de julho. Caso recebam avaliação positiva, o Brasil terá três geoparques. Atualmente, o Geoparque Chapada do Araripe (CE), reconhecido em 2006, é o único em território nacional.
Há outras 26 áreas com potencial para criação de geoparques no País, duas delas em Minas, Uberaba - Terra dos Dinossauros, com foco paleontológico e Serra da Canastra, contemplando as categorias geomorfológica e beleza cênica. Segundo Carlos Schobbenhaus, coordenador nacional do Projeto Geoparques do CPRM Serviço Geológico do Brasil, metade deste montante já foi avaliada. Além das propostas da CPRM, há três propostas externas de criação de geopaques no Paraná, no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Iniciado em 2008, o projeto envolve cerca de 40 técnicos, a maioria geólogos e alguns geógrafos e paleontólogos. No estudo das propostas há também parcerias com docentes de universidades. Carlos Schobbenhaus explica que a CPRM exerce um papel de indutor na criação de geoparques, ou seja, é um trabalho inicial que tem como base a existência de áreas com sítios importantes do patrimônio geológico. Segundo Carlos, de 2010 a 2011 o projeto foi contemplado com recursos do Plano de Aceleração do Crescimento e até o presente, foram aplicados cerca de R$ 400 mil, não incluindo gastos com pessoal.
Parque sem território
O coordenador do projeto da CPRM conta que, por acreditarem que a criação de um parque deste tipo implicaria na criação de novas unidades de conservação, houve casos de resistência por parte de empresas de mineração e do setor agropecuário.
Os geoparques podem ser considerados parques sem território. Ou, pelo menos, sem território no sentido comum ao das áreas de reservas e unidades de conservação. Eles não são uma nova categoria de área protegida, mas um programa que pretende associar a proteção de sítios do patrimônio geológico com o desenvolvimento regional. “A ausência de um enquadramento legal de um geoparque é a razão do sucesso dessa iniciativa em nível mundial”, analisa Carlos Schobbenhaus.
Ou seja, embora tenham áreas bem delimitadas, sua implantação não acarreta em desapropriações, como ocorre com as unidades de conservação. “O geoparque é um programa de valorização do patrimônio geológico e da história da mineração. Seu foco não é territorial e, sim, no desenvolvimento sustentável, na cultura e no turismo”, reforça o coordenador do Geopark Quadrilátero Ferrífero, Renato Ciminelli. Segundo ele, essa abordagem possibilita outro aproveitamento para as áreas de mineração, sem excluí-las, criando novas oportunidades para empreendedores locais.
Um exemplo é o geoturismo, que tem o patrimônio geológico como seu principal atrativo e busca torná-lo acessível ao público leigo. “Tentamos estabelecer roteiros interdisciplinares, fortalecendo ofertas já existentes. No caso de Ouro Preto, procuramos mostrar que a própria construção da cidade e sua arquitetura são tributárias de uma determinada conformação geológica”, exemplifica a professora Úrsula Ruchkys.
Áreas de minerações paralisadas ou ativas podem estabelecer ações que sirvam a fins didáticos e científicos, mas também demonstrar ao visitante a importância da mineração para o desenvolvimento econômico e social do país. Úrsula cita a Mina do Lousal, Portugal, como um bom exemplo de integração dessas atividades. A professora conta que na mina, ainda em operação, é mantido um espaço para divulgação cultural e científica. Nele, uma das atrações é o desmonte de carros a partir da retirada de determinado componente. “Eles simulam a retirada do alumínio, do ferro e de outros metais e mostram como o carro ficaria. Assim, demonstram de maneira didática a influência da atividade mineral no cotidiano das pessoas”, completa.

