Muro de pedra de mais de dois quilômetros, erguido nos primórdios do arraial do Curral del Rey, ganha atenção especial do Ministério PÚblico. Comunidade defende tombamento
A Serra do Curral é muito mais do que símbolo de Belo Horizonte, cartão-postal cheio de charme e testemunha do crescimento urbano. De forma surpreendente, por ser alvo de tanta degradação, atividades minerárias e especulação imobiliária, ela ainda guarda tesouros escondidos e prontos para desafiar pesquisadores e autoridades do patrimônio cultural. É o caso de um muro de pedras, com mais de dois quilômetros de extensão, que se estende no alto da Região Leste e agora recebe atenção especial do Ministério Público Estadual e do Laboratório de Arqueologia da UFMG, a pedido de um grupo cultural e ecológico do Bairro Saudade. Há várias hipóteses para a existência do monumento e, por enquanto, apenas uma certeza: se estudado a fundo, o muro poderá lançar mais luzes sobre os primórdios da cidade, nos tempos do Arraial de Curral del Rey, e fortalecer a história de BH desde então.
Ver de perto o muro de pedras da Serra do Curral, depois de uma caminhada bem puxada morro acima, está próximo de uma emoção forte. E inesquecível. Num dia de sol pleno, como ocorreu na quarta-feira, é como se Belo Horizonte resplandecesse, ao longe, protegida por uma muralha de hematita entremeada por flores roxas e amarelas e os cáctus típicos da vegetação no Quadrilátero Ferrífero. Empenhado na defesa desse patrimônio histórico e paisagístico, o Movimento Comunitário, Cultural, Esportivo e Ecológico Saudade e Adjacências, da Região Leste, buscou apoio no Ministério Público Estadual (MPE), via Promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico/MG (CPPC), pedindo providências a favor do tombamento e contra as ameaças de degradação. De imediato, o promotor de Justiça e coordenador do CPPC, Marcos Paulo de Souza Miranda, organizou uma expedição ao local, incluindo a sua equipe de historiadores e um arqueólogo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
“Queremos que o bem cultural seja protegido pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha) e pelo Município de Belo Horizonte. Somente assim teremos garantia de que será preservado”, diz o presidente do movimento, o médico Marco Antônio de Oliveira Zocrato. Conhecedor do monumento desde menino, ele e os demais integrantes do grupo, criado há um ano e meio, editaram o livro Clamor social pela vida! Serra do Curral, território e cercanias, no qual mostram a natureza do trecho denominado Média-Baixa Serra do Curral, entre as regiões Centro-Sul e Leste, com suas nascentes, vegetação e sítios. “Estamos organizados para defender esse tesouro escondido, que representa um lado abandonado da história de nossa cidade”, proclama o médico.
Para Zocrato e seus parceiros de luta pela preservação, a hipótese mais provável é que o muro de pedras seja remanescente do primeiro povoamento surgido no início do século 18, tendo à frente o bandeirante paulista João Leite da Silva Ortiz (1674-1730), no lugar onde, quase 200 anos depois, em 1897, a capital seria inaugurada. O monumento, com cerca um metro de altura ao longo de mais de dois quilômetros de extensão, seguido de um valo, com cerca de dois metros de profundidade, teria sido usado como curral oficial da coroa portuguesa, para o gado que vinha do Vale do Rio São Francisco em direção à região das Minas. Ortiz era dono da Sesmaria do Cercado, no tempo em que a Serra do Curral ainda tinha o nome de Serra das Congonhas.
LAUDO O promotor de Justiça Marcos Paulo ficou entusiasmado com o monumento, mas também se assustou ao ver lixo espalhado pelo chão, pedras retiradas do muro para dar passagem a motos de trilha ou usadas para demarcar, sob uma árvore, em forma de círculo, uma área de cultos religiosos. De imediato, solicitou ao arqueólogo Carlos Magno Guimarães, do Laboratório de Arqueologia da UFMG, que o acompanhou na visita, um laudo técnico sobre a construção, para, na sequência, tomar as providências necessárias. “Se ficar comprovado que o sítio é realmente daquele época, será o único vestígio, desse tipo, da Sesmaria do Cercado”, acredita o coordenador do CPPC.
Parte da Serra do Curral está sob proteção municipal desde 1991, com retificação em 2002, e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1960. Para Marcos Paulo, é fundamental que o Iphan delimite os perímetros de tombamento e de entorno do conjunto paisagístico da serra e do Pico Belo Horizonte, conhecido pela população como Piquinho. Em setembro, a Justiça Federal determinou que o serviço fosse feito em caráter emergencial e preventivo, em base georreferenciada, em ação ajuizada em conjunto pelos ministérios públicos Federal e Estadual.
O Iphan vem recorrendo na Justiça e informa que considera importante a delimitação de tombamento da Serra do Curral, mas há outras ações mais urgentes. Existe uma grande demanda de intervenções, segundo o órgão, embora os recursos materiais e humanos sejam limitados. Dessa forma, foram estabelecidas prioridades de atendimento, ficando como primeiros da fila os bens com maior risco de danos irremediáveis.
Amigos de longa data, desses que, na infância e adolescência, se aventuram mato adentro para conhecer as riquezas de sua terra, os integrantes do Movimento Comunitário, Cultural, Esportivo e Ecológico Saudade e Adjacências conhecem de cor e salteado as histórias e belezas da Serra do Curral. Com dois deles, Dirson Ovídio Borges, de 63 anos, e Edson Batista Barbosa, de 50, moradores das proximidades do Cemitério da Saudade, no Bairro Saudade, na Região Leste, o Estado de Minas conheceu o muro com as pedras sobrepostas sem argamassa. Felizmente, é preciso admitir, o difícil acesso e o desconhecimento do lugar impediram que ele ficasse em situação precária ou sumisse do mapa.
A cada momento, Dirson chama a atenção para um ponto importante que se avista, pois o marco está nas proximidades dos limites da capital com Sabará, Nova Lima e Raposos: a Serra da Piedade, coberta de nuvens; o Bairro General Carneiro, onde o Ribeirão Arrudas deságua no Rio das Velhas, em Sabará; o Pico Belo Horizonte; o paredão de concreto formado pelos prédios; a Mata da Baleia; a massa verde do Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG, entre as regiões Leste e Nordeste; e o antigo Hotel Taquaril, bem perto dos olhos. “Esse ponto é de grande valor turístico. Olhem como a temperatura aqui muda”, compara Dirson, lembrando-se do calor escaldante no Centro da cidade.
Depois da contemplação, vem o sentimento de que é preciso agir, com urgência, para evitar estragos numa área de tanta importância histórica. Com um pedaço de pau, ele e Edson recolhem um lençol que foi deixado no meio do mato. Não bastasse esse flagrante, um amontoado de pedras foi transformado em depósito de garrafas pet, embalagem de suco, papel de barra de cereais, peça plástica de uma moto, pedaço de espumas e até papel higiênico. “É um absurdo uma situação dessas. Ainda bem que uma mineradora saiu daqui de perto há 25 anos. Do contrário, teríamos hoje sérios problemas”, reclama Edson.
Quem conhece as trilhas sabe que silêncio e um cenário deslumbrante vão acompanhá-lo durante todo o trajeto. Depois de uma queda com a sua bicicleta, no caminho de pedras soltas, o agente penitenciário Wesley Rodrigues Melo, de 29, morador do Bairro Jardim dos Pirineus, na Região Leste. “Minha bike está preparada para qualquer derrapagem”, brinca Wesley, carregando a magrela ladeira acima. Mas tudo vale a pena: “Estudei a história de BH no colégio, passo aqui meus dias de folga, e gostaria de saber mais sobre este muro”.
CONVITE A diretora do Patrimônio Cultural da Fundação Municipal de Cultura (FMC), Michele Arroyo, se disse surpresa com a existência do muro. “Na época do tombamento, em 2002, percorremos todo o perímetro da Serra do Curral para mapeá-lo, mas não percebemos essa construção”, disse. Ele faz convite aos integrante do Movimento Comunitário, Cultural, Esportivo e Ecológico Saudade e Adjacências, para que compareçam à FMC com documentos, fotografias ou abaixo-assinado pedindo o tombamento, e mostrem a localização exata do monumento, para posterior vistoria. Michele diz que a fundação tem um programa de inventário para localizar antigas fazendas, mapeá-las e tentar identificar algumas reminiscências. (GW)
Depois da visita ao muro de pedras, Dirson mostra outro lado da Serra do Curral, desta vez em Sabará, na Grande BH. O caminho é a estrada velha, de terra, que conduz a duas estruturas de pedra – uma com 5m de profundidade e 2m de diâmetro e outra na medida 5m por 3,5m –, já bem danificadas pela passagem de jipeiros. As bordas estão quebradas e os cacos repousam no fundo, entre plantas. “É uma pena”, comenta o integrante do Movimento Saudade e Adjacências.
Conforme a tradição oral, que atravessou gerações conta Dirson, “as estruturas seriam poços para torturar os escravos que trabalharam na região, nos tempos coloniais. Um colega nosso, que passa muito por esses lados, recorda-se de ver um portão de ferro no poço maior”. Mas a princípio, segundo o arqueólogo Carlos Magno Guimarães, da UFMG, seriam caieiras ou fornos de fabricação de cal para uso na construção de casas. Nos séculos 18, 19 e início do 20, tais construções eram comuns.
No dia 11, o arqueólogo visitou os locais e agora está empenhado na elaboração de um parecer sobre a importância dos sítios e a necessidade de preservação. Ele explicou que o muro de pedra e valos eram recursos técnicos usados na divisa de propriedades e manter animais presos dentro de um território. Para ele, que se disse surpreso com a construção, o muro pode estar associado às origens de Belo Horizonte, mas, sem o desenvolvimento de uma pesquisa sistemática, tudo não passa de especulação.
Mais adiante, num paredão de rocha, Dirson mostra uma cavidade que teria sido mina de ouro de intensa exploração no período colonial. “Estamos num trecho importante da Estrada Real, com muitos pontos que ninguém conhece. Se não forem tomadas providências, é possível que, em pouco tempo, mais estragos ocorram”, disse. O secretário de Cultura de Sabará, Sérgio Alexandre, diz que as estruturas não têm tombamento pela prefeitura, mas vai fazer um pedido ao Conselho Municipal do Patrimônio para uma vistoria ao local, que fica perto da Região do Triângulo, a fim de avaliar a situação.
SERRA DAS CONGONHAS Para entender melhor os primórdios de BH, que, segundo especialistas, ainda são pouco estudados, a equipe do Ministério Público Estadual recorre aos estudos do jornalista, escritor e historiador Abílio Barreto (1883-1959), idealizador e diretor do Museu Histórico (MHAB) que leva seu nome e fica no Bairro Cidade Jardim, na Região Centro-Sul da capital. No texto O primeiro possuidor e povoador das terras de Belo Horizonte, publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, Barreto escreveu que, “em 1701, após a épica entrada de Fernão Dias Paes pelos sertões das futuras Minas Gerais, em demanda da Serra das Esmeraldas, quando a gente de Borba Gato, de Rodrigo Castelo Branco e outros aventureiros recentemente arribados a nossas plagas, começaram a povoar as adjacências de Sabará e as margens do Rio das Velhas, seduzido pelas mesmas perspectivas de abundância de ouro e atraído por Bartholomeu Bueno da Silva, entre outros, veio reunir-se a ele o seu futuro genro, João Leite da Silva Ortiz.
Barreto revela ainda que Ortiz teria ficado “impressionado pelos aspectos atraentes da Serra das Congonhas (mais tarde Serra do Curral) e suas encostas, prevendo, talvez, encontrar aí boas faisqueiras e ouro, prolongou-as e, a certa altura, descobrindo bela situação com ótimas terras de cultura, boas aguadas e magníficos postos para criação, deles se apossou, fixando-se definitivamente com numerosa escravatura nesse lugar, onde estabeleceu fazenda, a que denominou Areado, parte do mesmo solo em que está assentada a cidade de Belo Horizonte. (…) João Leite da Silva Ortiz era um paulista de alta linhagem, nascido na Vila da Ilha de São Sebastião, descendente de uma das principais famílias de São Paulo. (…) Certo é que, por volta de 1707, já o arraial de Curral d’El Rey existia em terras de Ortiz, onde este enriquecia com os produtos de sua fazenda de criação, plantações e outros negócios com os mineradores.”
O professor da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) arquiteto Tito Flávio Rodrigues de Aguiar, autor de tese de doutorado sobre Belo Horizonte, dá a sua contribuição para fazer a ligação entre o muro de pedras e as origens da capital. Ele também desconhece a existência do monumento, mas destaca que a Fazendo do Cercado, derivada da sesmaria, estava localizada onde é hoje o Vale do Cercadinho, entre os bairros Buritis e Palmeiras, na Região Oeste. E dá sugestões que podem ser aproveitadas pelos pesquisadores envolvidos no assunto. “Além de curral e divisão de propriedades, pode ter sido obra de alguma mineradora; estabelecimento de alguma fábrica que, no século 19, era muito comum na zona rural; resquício de lavra e aqueduto.”
Por Gustavo Werneck
Estado de Minas