Meio Ambiente

Exemplo de medidas mitigadoras


Para fins de exemplificação, apresenta-se a seguir um conjunto de medidas (baseadas em AFWE, 2015; Olsen et al., 2016), que podem ser aplicadas para evitar, minimizar e mitigar impactos da EPGNC no meio ambiente. O cenário é a migração de contaminantes a partir de um poço em produção. Os contaminantes são aqueles geralmente presentes nas lamas, cimentos, águas de produção e de formação: e.g. NORM, substâncias químicas e gás (metano):

  1. Realizar estudos de caracterização e monitoramento ambiental (baseline) antecedentes a EPGNC, cobrindo (dentre outras) geologia, geo-estrutural, fluxos das águas subterrâneas, qualidade das águas, migração de contaminantes e microssismicidade, de modo a se estabelecer o modelo conceitual da área, sendo este atualizado à medida que novas informações se tornam disponíveis;
  2. As licenças devem exigir informações do tipo (dentre outras): relação entre a zona de interesse e quaisquer aquíferos sobrepostos ou adjacentes; métodos de construção do poço; testes de integridade do poço; estabelecer por simulação a direção e sentido esperado para migração dos fluidos; detalhes da composição e demais características dos fluidos a serem injetados (fluidos do fracking); dados sobre os usos da água e do descarte de efluentes;
  3. Inventariar rotas potenciais de migração ou escape de fluidos (e.g., outros poços e falhas), na esfera de influência da perfuração e do fracking, e inserir estes dados no modelo conceitual;
  4. O operador deve elaborar um programa de fracking e aprová-lo junto ao órgão regulatório;
  5. Sempre que possível devem ser usados produtos químicos não perigosos nos fluidos do fracking, assim como estes devem ser avaliados pelo órgão regulatório;
  6. O regulador deve exigir: a) a previsão da programação do fracking para que seja possível prever a extensão do crescimento das fraturas; b) monitoramento e controle microssísmico durante as operações de fracking para garantir que as fraturas e/ou os poluentes não se estendam além das formações produtoras de gás e não resultem em eventos sísmicos; c) uma distância mínima entre os eixoa do fraturamento hidráulico e os estratos geológicos que contêm aquíferos (e.g. na literatura especializada esta distância varia de 600m a 1.000m, a depender da fonte e do país) e da superfície do terreno (e.g. qualquer atividade mais próxima da profundidade especificada requer permissão especial)
  7. Medidas devem ser adotadas para garantir a integridade do poço, como a realização de testes de integridade. Os resultados dos testes devem ser verificados independentemente.

Os recursos hídricos são potencialmente os mais sensíveis aos impactos ambientais decorrentes das atividades de fracking. A gestão da água é a questão a mais desafiadora na EPGNC, pois o fracking exige quantidades significativas de água doce, e gera grandes volumes de rejeitos líquidos contaminados por diversos elementos e compostos potencialmente tóxicos. No contexto da mitigação de impactos ambientais advindos do fracking, a pesquisa por alternativas de tratamento das águas residuais tem um lugar estratégico.

De acordo com Sun et al. (2019) atualmente duas opções para tratamento de águas residuais geradas pelas atividades do fracking são preferidas: 1) descarte por injeção de poço profundo, e; 2) reutilização no local como fluido do fracking. Ainda segundo estes autores, quando viável o tratamento parcial com subsequente reutilização continua sendo o método preferido para o gerenciamento dessas águas residuais. Caso contrário, tecnologias avançadas, como separação por membrana/destilação, osmose direta, compressão de vapor mecânico, eletrocoagulação, oxidação avançada e adsorção-biológica serão os tratamentos necessários para satisfazer os requisitos sustentáveis de reutilização ou descarga superficial.

Impactos potenciais da exploração de gás não convencional (shale gas) nas emissões de gases de efeito estufa à atmosfera

O desenvolvimento da produção de gás não convencional nos Estados Unidos tem aumentado o interesse da exploração dessa fonte energética em vários países do mundo, incluindo o Brasil. Porém, estudos realizados desde 2010 evidenciam que a sua exploração resulta em emissões muito significativas de gases de efeito estufa para a atmosfera, as quais contribuem para o aquecimento global do planeta.

Baseado em uma estimativa realizada pela Agência Europeia do Ambiente (AEA, 2012), as emissões de gases de efeito estufa ocorrem durante todo o ciclo de vida da geração de gás não convencional, desde a fase de implantação, que inclui a preparação da área, a perfuração dos poços, o fraturamento hidráulico e o completation ou completamento, até a fase de operação e combustão. Durante a fase de implantação, as emissões são mais significativas no estágio do completamento, no qual ocorre a reversão dos fluidos pelos poços (flowback) contendo gases, principalmente metano e dióxido de carbono, os quais escapam para a atmosfera. Porém, as emissões são consideravelmente mais expressivas na fase de combustão para geração de energia. A maioria dos estudos sugere que as emissões resultantes da exploração de gás não convencional são superiores às emissões resultantes da exploração do gás convencional, porém, inferiores à exploração de carvão mineral em um horizonte de 100 anos.

Neste sentido, caso a exploração de gás não convencional venha a ocorrer no Brasil, além do controle e entendimento dos aspectos relacionados aos impactos potenciais dos recursos hídricos, o monitoramento das emissões de gases de efeito estufa e o entendimento dos processos envolvidos durante todo o ciclo de vida da exploração tornam-se fundamentais, visando a mitigação dessas emissões baseada em boas práticas e novas tecnologias e, em última instância, a redução do aquecimento global.

Caderno Temático

Desenvolvimento sustentável e mitigação de impactos sócioambientais